quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Noel Rosa agora é domínio público

Retirado do site Gafieiras

[ 25.jan.08 ] Isso mesmo, o grande Noel Rosa, de vida tão intensa quanto breve, é o primeiro compositor brasileiro a ter sua obra presente na seleta lista dos artistas que são de domínio público. Claro que ele não é o pioneiro - pensem, por exemplo, em Chiquinha Gonzaga (1847-1935), Ernesto Nazareth (1863-1934) e Sinhô (1888-1930) -, mas é certamente o primeiro autor de canções clássicas (música e letra) da música popular brasileira a entrar no rol.

Segundo a legislação brasileira as obras artísticas são protegidas pela lei do direito autoral por toda a vida do criador e mais 70 anos após sua morte; e Noel Rosa morreu em 1937, aos 26 anos de idade. Portanto, a partir de 2 de janeiro de 2008 cerca de 120 das composições de Noel (feitas solo ou com parceiros que faleceram até 1937) estão livres para serem usadas, recriadas, mexidas, misturadas e reverenciadas por qualquer um. Não custa lembrar que o carioca compôs algo em torno de 250 canções em dez anos de produção artística (segundo levantamento de João Máximo e Carlos Didier no livro Noel Rosa – Uma biografia, UnB, 1990).

O Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da FGV fez o mapeamento das canções que caíram em domínio público. A lista completa, repleta de clássicos, segue abaixo e para mais informações basta um pulo no site do CTS/FGV
ou então do projeto Cultura Livre:

“Agora” (1931) – “Alô beleza” (?) – “Amor de parceria” (1933) – “Arranjei um fraseado” (1933) – “Até amanhã” (1932) – “Baianinha” (1929) – “Brincadeira de roda” (?) – “Canção do galo capão” (1935) – “Cansei de implorar” (1935) – “Cansei de pedir” (1935) – “Capricho de rapaz solteiro” (1936) – “Choro” (?) – “Chuva de vento” (1937) – “Cidade mulher” (1936) – “Coisas do sertão” (1929) – “Com que roupa?” (1929) – “Condeno o teu nervoso” (1935) - “Contraste” (1933) – “Cor de cinza” (1933) – “Coração” (1931) – “Cordiais saudações” (1931) – “Cumprindo a promessa” (1929) – “Dama do cabaré” (1936) – “Disse-me-disse” (1935) – “Dona Aracy” (1930) – “Dono do meu nariz” (1933) – “É difícil saber fingir” (?) – “É preciso discutir” (1931) – “Envio essas mal traçadas” (1935) – “Espera mais um ano” (1932) – “Estamos esperando” (1932) – “Eu não preciso mais do seu amor” (?) – “Eu sei sofrer” (1937) – “Eu vou pra Vila” (1930) – “Faz três semanas” (?) – “Festa no céu” (1929) – “Fita amarela” (1932) – “Fita de cinema” (1935) – “Foi ele” (1935) – “Gago apaixonado” (1930) – “A Genoveva não sabe o que diz” (1935) – “João Ninguém” (1935) – “Juju” (1935) – “Lira abandonada” (?) – “Madame honesta” (?) – “O maior castigo que eu te dou” (1934) – “Malandro medroso” (1930) – “Marcha da primavera” (1934) – “Mardade de cabocla” (1931) – “Maria-fumaça” (1936) – “Mentir” (1933) – “Mentiras de mulher” (1931) – “Meu barracão” (1933) – “Meu bem” (1931) – “Minha viola” (1929) – “Muito riso, pouco siso” (?) – “Mulata fuzarqueira” (1931) – “Mulato bamba” (1931) – “Mulher indigesta” (1932) – “Não brinca não” (1932) – “Não me deixam comer” (1932) – “Não morre tão cedo” (?) – “Não tem tradução” (1933) – “Negócio de turco” (?) – “No baile da flor-de-lis” (?) – “Nos três dias de folia” (1937) – “Numa noite à beira-mar” (1936) – “Nunca... jamais” (1931) – “Nuvem que passou” (1932) – “Onde está a honestidade?” (1933) – “Paga-me esta noite” (1934) – “Palpite infeliz” (1935) – “Para atender a pedido” (?) – “Pela décima vez” (1935) – “Pesado 13” (1931) – “Picilone” (1931) – “Por causa da hora” (1931) – “Por esta vez passa” (1931) – “Por você sou capaz” (?) – “Pra esquecer” (1933) – “Pra lá da cidade” (?) – “Precaução inútil” (1935) – “Proezas de seu fulano” (?) – “O pulo da hora” (1931) – “Quando o samba acabou” (1933) – “Quando pelas aulas ando” (1927) – “Que a terra se abra” (1935) – “Quem dá mais?” (1930) – “Quem não dança” (1932) – “Quem parte não parte sorrindo” (?) – “Quem ri melhor” (1936) – “Rapaz folgado” (1933) – “Remorso” (1934) – “Riso de criança” (1930) – “Roubou, mas não leva” (1935) – “Saí da tua alcova” (?) – “Saí do presídio” (?) – “São coisas nossas” (1932) – “Século do progresso” (1934) – “Seja breve” (1933) – “Seu Jacinto” (1933) – “Seu Zé” (1935) – “Silêncio de um minuto” (1935) – “Só você” (?) – “Tipo zero” (1934) – “Três apitos” (1934) – “Tudo que você diz” (1933) – “Último desejo” (1937) – “Vagolino de cassino” (?) – “Vaidosa” (1931) – “Verdade duvidosa” (?) – “Vingança de malandro” (1930) – “Você é um colosso” (1934) – “Você vai se quiser” (1936) – “Voltaste (pro subúrbio)” (1934) – “Vou te ripar I” (1930) – “Vou te ripar II” (1930) – “O X do problema” (1936) – “Yolanda” (1935)

Dafne Sampaio

domingo, 27 de janeiro de 2008

O microfone e a bossa de Mário Reis

Em 1928, o jovem de 20 anos Mário da Silva Meirelles Reis foi um dos primeiros a gravar um disco com a então moderna técnica de captação de som: o microfone. Na época, o então estudante de direito e colega de escola de Ary Barroso, não sabia que revulocionaria a canção brasileira com sua nova forma de cantar, influenciando o inventor da bossa nova, João Gilberto.

Para o jornalista e crítico de música Luís Antônio Giron, que escreveu o livro Mário Reis – O fino do samba (publicado pela Editora 34), “João está encapsulado no cérebro de Mário”. Em entrevista publicada na Agenda do Samba-Choro, Giron conta por que João não existiria sem Mário Reis:

"Existiria como indivíduo biológico e até como cantor semi-impostado, ao estilo de Lúcio Alves. Mas sua maneira especial de explorar as sutilezas da linha melódica e da fala baiana não teria sido possível sem a aparição da técnica de Mário. João levou adiante a descoberta da "bossa". Porque Mário não foi apenas um genial intérprete da ironia e do desencanto amoroso; foi um inventor de uma técnica vocal, de um estilo de cantar que pode ser chamado tranqüilamente de "brasileiro", em contraposição ao estilo lírico "italiano". A bossa nova, de certa forma, é filha da bossa. E bossa era um termo que significava, na época, um jeito suave de cantar, com sábia ironia. "

Mário Reis canta “Cadê Mimi?”, no Filme Alô Alô Carnaval -1936

Antes de Mário, apenas Francisco Alves tinha soltado a opulente voz, em 1927, com a canção “Morena”, de Eduardo Souto. Ainda em 1927 muitos cantores se arriscaram a gravar, sem sucesso, frente ao desafiador microfone.

A dificuldade estava justamente na captação eletromagnética do som feita pelo microfone. Até então era usado o autofone, um sistema mecânico no formato de um cone que sensibilizava o diafragma de borracha, que, por sua vez, fazia a agulha vincar a matriz de cera, rodando em um torno.

O processo obrigava os artistas a cantarem em um volume elevado, chegando inclusive a gritar. Isso condizia com a maneira operística de se cantar e ajudava nomes como Vicente Celestino ou Carlos Galhardo a desempenhar seu papel nas gravadoras.

Mas no estúdio Odeon, na cúpula do Teatro Phoênix, localizada na conhecida Praça Tiradentes, Mário revolucionou a história da música. A voz suave, sincopada e marcada por uma harmoniosa escanção silábica também influenciou o poeta da Vila, Noel Rosa.

Aproximadamente 80 anos depois, pouco da ironia da bossa de Mário Reis passou para as canções da bossa nova de João Gilberto. Mas uma coisa não se pode negar. Entre um e outro ficou uma intensa relação com o microfone.

Mário Reis - 1971*
1. Cansei (Sinhô)
2. Amar a uma só mulher (Sinhô)
3. Moreninha da praia (João de Barro)
4. Fui louco (Bide)
5. Nem é bom falar (Nilton Bastos - Ismael Silva - Francisco Alves)
6. Voltei a cantar (Lamartine Babo)
7. A banda (Chico Buarque)
8. Filosofia (Noel Rosa)
9. Rasguei a minha fantasia (Lamartine Babo)
10. Gosto que me enrosco (Sinhô)
11. Se você jurar (Nilton Bastos - Ismael Silva - Francisco Alves)
*Músicas em Mp3

Mário Reis (1971)

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Vermute conta o samba: A Flor e o Espinho

Quem concebeu "Vou-me Embora pra Pasárgada" não precisava invejar a ninguém. Mas Manuel Bandeira, o poeta que afirmou nos versos tristes de "Testamento" ser "poeta menor", deu mais uma prova de sua bela humildade ao se deparar com o samba "A Flor e o Espinho", composto por Guilherme de Brito, Nelson Cavaquinho e Alcides Caminha.

Os versos "Tire seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor" foram considerados por Bandeira como os mais belos versos já escritos na Língua Portuguesa. A opinião era compartilhada por outro nome de peso: Sérgio Porto, também conhecido como Estanislaw Ponte Preta.

E como a imensa maioria dos grandes sambas antigos, a idéia inicial surgiu em um botequim. Desta vez, na Praça Tiradentes, rodeada de cerveja e em meio a fumaça dos cigarros, o golaço foi de Guilherme de Brito.

Em uma entrevista ao Caderno C, do campineiro Correio Popular de 21 de agosto de 2002, Guilherme conta a história:

Em uma noite da década de 50, Guilherme de Brito foi à Praça Tiradentes depois de ter assistido a um show do cantor Augusto Calixto. Como era de costume foi ao botequim que freqüentava na região e se sentou. "...sempre aparecia por lá, no final da noite, uma mulher da vida, muito escandalosa, que ria demais, falava muito alto. Então eu escrevi no maço de cigarros: 'Tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor'. Passei para o Nelson a primeira parte e ele completou de um modo muito bonito".

Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor
Hoje pra você eu sou espinho
Espinho não machuca a flor
Eu só errei quando juntei minh'alma à sua
O sol não pode viver perto da lua

É no espelho que eu vejo a minha mágoa
É minha dor e os meus olhos rasos d'água
Eu na tua vida já fui uma flor
Hoje sou espinho em seu amor


A música foi gravada em 1957 por Raul Moreno no disco Todamérica, mas não fez muito sucesso. O reconhecimento veio na voz de Elizeth Cardoso, quando em 1965, foi gravada no LP "Elizeth sobe o morro".

A parceria entre Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito durou 40 anos, até a morte de Nelson em 18 de fevereiro de 1986. Teoricamente havia um pacto de fidelidade, em que um apenas poderia compor com o outro, mas Nelson freqüentemente se esquecia disso: "O Nelson disse que eu só poderia compor com ele e vice-versa, mas só eu fui fiel. Ele gostava de umas biritas a mais e acabava se esquecendo do pacto, vendia samba pra pagar a conta do bar..."

Depois da morte de Nelson, Guilherme compôs com outros grandes nomes do samba como Monarco, Alcyr Pires Vermelho, Nelson Sargento. Mas Bandeira gostou mesmo é da obra-prima daquela parceria conturbada.

Vale a pena escutar, pelo menos, duas versões do samba, já gravado por muitos outros artistas como Beth Carvalho, Paulo Moska e Luciana Souza. Na primeira, Guilherme de Brito canta (após a recusa de Nelson Cavaquinho) "A Flor e o Espinho" e o belo samba "Quando eu me chamar saudade". A música está no álbum "Os quatro Grandes do Samba".

Uma segunda versão, com Guilherme de Brito cantando e acompanhado do Trio Madeira Brasil também vale a pena ser conhecida. O Álbum leva o nome da música.

A Flor e o Espinho/Quando eu me Chamar Saudade

A Flor e o Espinho

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Vermute com Amendoim recomenda: Rômulo Fróes --- Calado

O som melódico da cuíca, deixando de lado sua função percussiva, é como que se dissesse que o disco que vem pela frente é diferente. E Rômulo Fróes escolheu a forma perfeita para iniciar a seqüência de músicas contidas no CD intitulado Calado, de 2004. O que vem em seguida é uma doce pancada de poesia e melancolia, à la Nelson Cavaquinho.


Não à toa foi chamado "sambista indie" pela revista Bravo! As letras, embora com uma coloração contemporânea, tem a melancolia dos sambas antigos, daqueles compostos por Cavaquinho ou pelo baiano Batatinha. O violão lembra um pouco do portelense Paulinho da Viola.

O resultado final é uma fusão convidativa entre o novo e o velho, cantadas por uma voz grave e ponderada, que se limita a alcançar os tons mais altos apenas para passar a tristeza para os ouvidos sensíveis.

Em algumas faixas também podem ser escutados instrumentos nada convencionais nos sambas e que foram tratados de uma forma tão gentil que parecem poder entrar tranquilos em qualquer morro. É o caso dos contrabaixos e dos saxofones que criam o pano de fundo. Na faixa sete, o sax rouba a cena.

E, depois de 13 músicas, quando já se sente tranquilo e felizmente triste, Rômulo apresenta uma versão para duas composições consagradas. Na Cadência do Samba, de Ataúlfo Alves e Paulo Gesta, e Fita Amarela, do mestre Noel Rosa.

Já se foram longos quatro anos de sambas corridos, mas o disco ainda vale a pena e está entre os melhores da categoria "novos".

Rômulo Fróes --- Calado

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Seleção de sambas-enredo Vermute com Amendoim

Nessa época do ano existe muita gente por aí que quando ouve falar de samba-enredo já sente aquele frio na espinha. Durante um tempo eu também pensei assim, afinal de contas, os sambas-enredo atuais são muito parecidos, acabaram virando quase que um commoditie. Além disso, não podemos negar a queda na qualidade dos sambas de hoje e não é por conta de um saudosismo da minha parte, pois até acho que de vez em quando surge algum bom aqui ou ali, mas não se compara aos dos grandes mestres do passado.

Aqui vai uma seleção de alguns sambas-enredo que eu acho que valem a pena serem relembrados:

01 - Aquarela Brasileira (Silas de Oliveira) - Império Serrano (1964)

02 - Chica da Silva (Anescarzinho / Noel Rosa de Oliveira) - Salgueiro (1963)

03 - Ao Povo em Forma de Arte (Nei Lopes / Wilson Moreira) - Quilombo (1977)

04 - Dona Bêja - Feiticeira de Araxá (Aurinho da Ilha) - Salgueiro (1968)

05 - Zaquia Jorge, A Estrela do Subúrbio, Vedete de Madureira (Alvarense) - Império Serrano (1974)

06 - Arca de Noel (Osvaldinho da Cuíca / Lírio) - Vai Vai (1978) / Marquesa de Santos (Paulistinha) - Nenê de Vila Matilde (1961)

07 - Negro Maravilhoso (Talismã) - Camisa Verde e Branco (1982) / Oração em Tempo de Festa (Geraldo Filme) - Paulistano da Glória (1977) / Narainã (Ideval Zelão / Jordão) - Camisa Verde e Branco (1977)

08 - Seis Datas Magnas (Altair Prego / Candeia) - Portela (1953)*

09 - Ciência e Arte (Cartola / Carlos Cachaça) - Mangueira (1947)

10 - Riquezas do Brasil (Candeia / Waldir 59) - Portela (1950)

11 - Cântico à Natureza (Jamelão / Nelson Sargento / Alfredo Português) - Mangueira (1955)

12 - O Grande Presidente (Padeirinho) - Mangueira (1956)

13 - Vale do São Francisco (Cartola / Carlos Cachaça) - Mangueira (1948)

* Este samba foi o primeiro que Candeia compôs e foi o primeiro a conseguir a nota máxima do júri do desfile.

Seleção de Sambas-enredo do Vermute com Amendoim

domingo, 6 de janeiro de 2008

Osvadinho da Cuíca no SESC-SP

Ontem resolvi ir ao SESC Vila Mariana para ver uma roda comandada pelo Cidadão Samba de São Paulo, mais conhecido por Osvaldinho da Cuíca. Para quem conhece o SESC Vila Mariana, a roda aconteceu ali embaixo das bilheterias e em frente à lanchonete.

O agradável ambiente estava repleto de pessoas de todas as idades, inclusive algumas senhoras que esbanjavam alegria, dançando sem parar animando a todos em volta. Osvaldinho também era só alegria: dançou com o público presente, contou histórias, cantou com sua "voz de preto velho", tocou além de cuíca, caixa e surdo e ainda desabafou dizendo que os concursos de samba enredo são todos arranjados. Em seguida cantou o seu samba que foi eliminado, e de fato, era muito bonito.


Para quem se interessar e estiver em SP dia 19 de janeiro tem bis.

Trailer do documentario "Osvaldinho da Cuíca: Cidadão Samba"

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Vermute com Amendoim recomenda: Luiz Melodia --- Estação Melodia

Em meio aos lançamentos de diversos discos de samba gravados por artistas que se destacaram em outros gêneros músicais, talvez alguém possa pensar que Luiz Melodia esteja, também, querendo cair nas graças do povo com uma meia dúzia de sambas.

Luiz herdou o sobrenome Melodia do pai, Oswaldo Melodia, sambista e compositor com algumas belas obras como "Maura", por exemplo. Além disso Luiz nasceu e cresceu no morro do Estácio de Sá e sempre foi fã declarado de mestres como Ismael Silva e Zé Kéti.

Neste disco Luiz interpreta grandes sambas de Cartola, Geraldo Pereira, Wilson Batista, Jamelão, Ismael Silva e Noel Rosa de Oliveira, dando uma cara aos sambas que só ele poderia fazer, já que possui uma voz bem singular e que casa muito bem com o ritmo. O trabalho ainda conta com duas músicas de seu pai e duas do próprio Luiz.

01 - Tive Sim (Cartola)
02 - Não me Quebro à Toa (Oswaldo Melodia)
03 - Dama Ideal (Alcebíades Nogueira / Arnaldo Passos)
04 - Papelão (Geraldo das Neves)
05 - O Rei do Samba (Miguel Lima / Arino Nunes)
06 - Chegou a Bonitona (Geraldo Pereira / José Batista)
07 - Cabritada Mal Sucedida (Geraldo Pereira)
08 - Recado que a Maria Mandou ( Haroldo Lobo / Wilson Batista)
09 - Nós Dois (Luiz Melodia / Renato Piau)
10 - Choro de Passarinho (Renato Piau / Euclides Amaral / Rubens Cardoso) Part. Jane Reis
11 - Contrastes (Ismael Silva)
12 - Eu Agora Sou Feliz (Jamelão / Mestre Gato)
13 - O Neguinho e a Senhorita (Noel Rosa de Oliveira / Abelardo da Silva)
14 - Linda Tereza (Oswaldo Melodia)

Luiz Melodia --- Estação Melodia (2007) LINK ARRUMADO

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Wilson Batista: De malandro a operário

Mais conhecido pela polêmica em que se envolveu com Noel Rosa, Wilson Batista não tinha muita instrução e mal sabia assinar seu nome. Mas isso nao o impediu de gravar seu nome na galeria dos grandes compositores de samba. Começou a carreira nos cabarés da velha Lapa. Além disso ainda trabalhava como eletricista e ajudante de contra-regra no Teatro Recreio, na Praça Tiradentes.

Wilson era amante da boemia, apoiava a malandragem e era um malandro de fato: para ganhar algum dinheiro ia desde a cafetinagem até a venda de sambas. O sucesso veio em 1933 com um samba chamado "Desacato" em parceria com Patrício Vieira e gravado por Francisco Alves, Castro Barbosa e Murilo Caldas. No mesmo ano o samba "Lenço no pescoço" foi gravado por Sílvio Caldas, samba que daria início a famosa polêmica já mencionada, dizendo:

Meu chapéu do lado
Tamanco arrastando
Lenço no pescoço
Navalha no bolso
Eu passo gingando
Provoco e desafio
Eu tenho orgulho
Em ser tão vadio
Sei que eles falam
Deste meu proceder
Eu vejo quem trabalha
Andar no miserê
Eu sou vadio
Porque tive inclinação
Eu me lembro, era criança
Tirava samba-canção
Comigo não
Eu quero ver quem tem razão
E eles tocam
E você canta
E eu não dou

Mas seu primeiro grande sucesso veio na voz de Moreira da Silva, com o samba "Acertei no milhar" (1938), composto em parceria com Geraldo Pereira.

Em meados dos anos 1940, Wilson teve que mudar a temática dos seus sambas, que exaltava a malandragem, principalmente por conta de uma portaria do governo da época que proibia tal coisa. O samba que marca esta reviravolta em sua obra foi composto junto com Ataulfo Alves e chama-se "O bonde de São Januário", que diz:

Quem trabalha
É quem tem razão
Eu digo
E não tenho medo
De errar

Quem trabalha...

O Bonde São Januário
Leva mais um operário
Sou eu
Que vou trabalhar

O Bonde São Januário...

Antigamente
Eu não tinha juízo
Mas hoje
Eu penso melhor
No futuro
Graças a Deus
Sou feliz
Vivo muito bem
A boemia
Não dá camisa
A ninguém
Passe bem!


Wilson Batista morreu na miséria, por conta do abuso das drogas, do álcool e da depressão causada pelo esquecimento de seu nome.


Ouça Wilson Batista:
Desacato
Por favor vai embora
Inimigo do batente
O bonde de São Januário
Acertei no milhar
Louco (Ela é o seu mundo)
Mundo de zinco
Nega Luzia
Ganha-se pouco mas é divertido
Lenço no pescoço
Oh! Seu Oscar
E o 56 não veio

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Paralelas do ritmo

Retirado do site algo a dizer.

Por Áurea Alves

Costuma-se brincar quando um grupo de pessoas canta de modo desafinado, chamando-os de “paralelos do ritmo” aqueles que nunca se encontram. Paralelas diz-se das retas que não se encontrarão em ponto algum do plano geométrico.
Paralelos são os trabalhos de Maria Rita e Teresa Cristina, recém-lançados, dedicados ao samba e que possuem características distintas desde a concepção até o acabamento das capas dos discos. Não se trata de reduzir o universo de cantoras de samba aos dois nomes, mas comparar dois trabalhos que anunciam jamais se encontrar. O samba de Maria Rita é de oportunidade, serve-lhe para ajustar o destino de sua carreira, mantê-la em evidência, com um trabalho que pode repercutir em vendagem e em casas lotadas durante seus shows. O de Teresa segue por outro caminho, apresentando-a como compositora que mergulha cada vez mais no universo do samba e, em especial neste disco, realça suas características de cantora. Teresa se consolidará como representante do movimento de samba surgido na Lapa (Rio de Janeiro). Maria Rita ainda precisará buscar sua identidade dentro da Música Popular Brasileira, mesmo que prossiga com altas vendagens.

O samba de resultados de Maria Rita
Maria Rita nasceu em família de artistas: o pai, o arranjador e pianista César Camargo Mariano e a mãe, a perfeita e insuperável, Elis Regina. Sua voz se assemelha à da mãe Tornou-se cantora, quase como decorrência natural de sua família – seu irmão Pedro é cantor e seu meio irmão, João (filho de Elis e Ronaldo Bôscoli) está à frente da gravadora Trama, que se especializou em artistas dessa geração, com trabalhos voltados ao mundo pop.
Seu primeiro disco foi recebido com críticas, em primeiro lugar pelo uso explícito da semelhança com Elis, até na elaboração do repertório que lembrava o da falecida cantora – com direito a música de Milton Nascimento. Em segundo lugar porque de fato o disco era irregular e as músicas selecionadas não definiam o propósito artístico de Maria Rita. Seu segundo disco seguiu na mesma linha, buscando a dissociação, mantendo um repertório irregular.
Apesar do investimento em marketing, Maria Rita não ocupou espaço entre o grupo de artistas que mais vendem discos e trafegou titubeante num espaço em que já reinavam Ivete Sangalo e seu axé pop, Ana Carolina e suas canções modernas voltadas para o público feminino e Marisa Monte com suas baladas tribalistas e seu samba autoral, dentre tantas outras cantoras, campeãs de venda. Ficou no que se pode chamar de linha média, vendendo bem, sem imprimir uma marca especial para si.
Com o lançamento do CD Samba Meu, opta por enveredar-se pelo mundo do samba, considerando o momento em que vive o gênero, uma experiência como admite, sem buscar tornar-se especialista no gênero. Para isso juntou-se ao produtor Leandro Sapucahy (ex-pagodeiro, percursionista do grupo de Marcelo D2) que lhe conduziu, segundo afirma, pelo mundo do samba.
O resultado foi um disco bem produzido em que Maria Rita interpreta seis sambas de Arlindo Cruz, partideiro do Cacique de Ramos, de Gonzaguinha, Serginho Meriti (com o ótimo Cria), alternando arranjos típicos de roda de samba, com outros com levada de bossa-nova. Como normalmente ocorre em seus discos, a produção é bem cuidada, com bons arranjos, não necessariamente criativos, mas que provocam uma outra percepção de sambas que funcionam bem nas rodas do subúrbio. São sambas que ganham uma interpretação adequada confirmando a qualidade vocal desta cantora.
Contudo, o que não cai bem é a verdadeira identidade de Maria Rita com o samba. A impressão deixada, em que pese a qualidade, frise-se, é de que se trata de um trabalho artificial, levando à constatação de que a cantora ainda não encontrou seu verdadeiro espaço na Música Popular Brasileira, e opta pelo samba como alternativa vendável, buscando para isso assessorias confiáveis e do ramo – no caso, de Ramos. Sinal de que pode cair no grupo de boas cantoras que não dominam a escolha de seu repertório e oscilam entre estilos, correndo o risco de desgastar a carreira.
Essa sensação confirma-se pela capa escolhida, que remete à religiosidade dos sambistas, às suas roupas e aos trejeitos. Maria Rita usa um chapéu de palha e traz um grosso cordão dourado sustenta figas de cristal e um medalhão. Signos que reunidos remetem ao universo dos subúrbios cariocas, talvez. No entanto despem-se da significação que de fato poderiam conter, como é este disco. Na contra-capa imagens de santos, São Jorge ao centro, num arranjo que lembra um altar ou uma oferenda. Assim Samba Meu encerra os trabalhos.

Ficha técnica:
Samba MeuProdução:Leandro Sapucahy
Co-produção: Maria Rita
Warner Music
1. Samba Meu (Rodrigo Bittencourt)
2. O Homem Falou (Gonzaguinha)
3. Maltratar Não É Direito (Arlindo Cruz e Franco)
4. Num Corpo Só (Arlindo Cruz e Luis Cláudio Picolé)
5. Cria (Serginho Merity e César Belieny)
6. Tá Perdoado (Arlindo Cruz e Franco)
7. Pra Declarar Minha Saudade (Arlindo Cruz e Jr. Dom)
8. O Que É o Amor (Arlindo Cruz, Fred Camacho e Maurição)
9. Trajetória (Serginho Merity, Arlindo Cruz e Franco)
10. Mente ao Meu Coração (Francisco Malfitano e Pandia Pires)
11. Novo Amor (Edu Krieger)
12. Maria do Socorro (Edu Krieger)
13. Corpitcho (Ronaldo Barcelose Luis Cláudio Picolé)
14. Casa de Noca (Serginho Merity, Nei Jota Carlos e Elson do Pagode)

O delicado samba de Teresa Cristina
Teresa Cristina nasceu no subúrbio carioca, foi manicure, estudou letras, freqüenta umbanda e decidiu ser cantora já formada em Letras. Sua carreira começou praticamente na num período anterior à revitalização do bairro, quando algumas poucas casas abrigavam alguns sambistas em rodas, à revelia das condições do bairro.Tanto quanto o bairro passou a ser revitalizado, cresceu a importância da cantora, acompanhada pelo Grupo Semente, composto por Bernardo Dantas, Pedro Miranda, João Callado e Trambique. A formação dos músicos determinou o interesse pelo samba, especialmente aquele produzido na Portela, como se percebe na influência de Candeia e na construção do repertório dos discos que se seguiram.
Ao trabalho dessa cantora e compositora não se aplica o termo resgate, uma vez que sua principal característica é o diálogo com o samba produzido fora da Lapa, em especial em Oswaldo Cruz. São exemplos disso, as composições feitas em parceira com Argemiro do Patrocínio (falecido integrante da Velha Guarda da Portela) e a presença da cantora na ala dos compositores da escola de samba Portela.
Teresa produz samba como se constata no CD Delicada, em que apresenta composições próprias, em parcerias com João Callado e com Zé Renato. Assim, nesse repertório, identifica-se a influência de compositores portelenses como os sofisticados Paulinho da Viola, Zé Ketti e Candeia.
Um aspecto importante neste disco é que a cantora abandona a timidez, afirmando-se como cantora, imprimindo características próprias ao interpretar Gema (Caetano Veloso), Carrinho de Linha (do esquecido sambista baiano Walter Queiroz) e em No pé do lageiro (de João do Valle), além da faixa-título, que interpreta com mais sentimento do que delicadeza, secundada pelos arranjos do grupo com participação de Paulão Sete Cordas em A paz do Coração (Candeia).
É um disco produzido para o mercado, e como todo o resto, do qual se espera uma boa vendagem, uma vez que é o primeiro dessa cantora em uma grande gravadora, registrando a produção e o tratamento dado ao samba pelos novos grupos surgidos na Lapa. É o trabalho que Teresa Cristina sempre fez e continuará a fazer, delicadamente.

Ficha técnica:
Delicada Produção: Paulão 7 Cordas
EMI
1. Cantar (Teresa Cristina)
2. A Gente Esquece (Paulinho da Viola)
3. Fim de Romance (Teresa Crisitna e Argemiro)
4. Nem Ouro, Nem Prata (Ruy Maurity)
5. Quebranto (Alfredo del Penho e Teresa Crisitna)
6. Gema (Caetano Veloso)
7. Carrinho de Linha (Walter Queiroz)
8. Pé do Lageiro (João do Valle)
9. Senhora das Águas (João Callado e Teresa Crisitna)
10. João Teimoso (João Callado)
11. Delicada (Teresa Crisitna e Zé Renato)
12. A Paz no Coração (Candeia e Cabana)
13. Saudade de Você (Teresa Cristina e João Callado)
14. Fechei a Porta (Sebastião Motta/Delice Ferreira)/Rosa Maria (Anibal da Silva/Éden Silva)/Jura (Adolfo Macedo/Marcelino Ramos)

Áurea Alves é jornalista

domingo, 16 de dezembro de 2007

Obrigado, Terreiro Grande!

Hoje em dia, graças à Internet, é possível ter um pouco mais de noção de alguns acontecimentos. Estou me referindo (mais uma vez) ao grupo Terreiro Grande, que recentemente esteve no Rio de Janeiro para divulgar o disco que lançou junto com Cristina Buarque. Segundo relatos de cariocas que acompanharam o grupo, não só no show que ocorreu no Trapiche Gamboa, mas como também na roda que foi realizada na Ilha de Paquetá, o grupo foi só elogios. E deixando o bairrismo de lado, confirmaram a qualidade do grupo que os paulistas já conheciam.

Por onde passam, eles resagatam aquela alegria e leveza que a muito tempo a gente não encontrava no samba. Até agora a única menção negativa que encontrei ao trabalho deles foi em uma coluna do Nelson Motta, aonde ele diz, sem citar qualquer grupo, que os novos artistas que estão gravando samba como por exemplo a Maria Rita e o D2 inovam e "[...]deixam os resgates para o Corpo de Bombeiros[...]" referindo-se às gravações atuais de sambas antigos.

A verdade é que pela primeira vez me sinto vivendo uma revolução artística, dessas que a gente só ve na escola, provocada pelo "estouro" do grupo Terreiro Grande. Fico cheio de esperança só de pensar que este pode ser o primeiro passo de uma retomada mais abrangente dos sambas e dos sambistas esquecidos, ou não. E tenho quase certeza que, bons frutos virão com o tempo. Se Deus quiser!!!

Ingrata Solidão --- Geraldo Babão


TERREIRO GRANDE OU UMA REUNIÃO DE AMIGOS
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