quinta-feira, 24 de julho de 2008

Adeus Zezé

Maria José Gonzaga, conhecida como Zezé Gonzaga, morreu na madrugada desta quinta-feira, no Rio de Janeiro. Ex-cantora da Rádio Nacional, Zezé tinha 81 anos e estava internada no Hospital Adventista Silvestre.

Estrela da fase áurea da Rádio Nacional, Zezé deixou a cidade mineira de Manhuaçu, onde nasceu e foi morar no Rio. Em 1956, com 29 anos gravou seu primeiro disco. Na década de 70, decepcionada com o rumo do mercado fonográfico, deixou a carreira de lado e foi trabalhar em uma creche, em Curitiba.

Voltou quase dez anos depois, em 1979, por conta de um convite de Hermínio Bello de Carvalho. Seu mais recente disco foi lançado em 2006, pela Biscoito Fino e se chama "Sou apenas uma senhora que canta".
O velório e o enterro foram marcados para hoje à tarde. A causa da morte não foi divulgada.

Musical não agrada no Rio

Quando colocamos a agenda de julho no ar, um dos destaques era o musical "Eu sou o Samba", em cartaz no teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro. Não fomos ver, mas o Jornal do Brasil enviou Macksen Luiz que parece ter gostado muito pouco do que viu. Seguem alguns trechos do artigo publicado nesta quinta:

"Eu sou o samba", em cartaz no Teatro Carlos Gomes, incorre no erro de tratar o musical que pretende ser seleção de sambas, da sua origem à atualidade, como seqüência de composições, que se estende por quadros com pífia estrutura cênica.

Como em qualquer seleção se pode discordar da exclusão de alguma música considerada fundamental para figurar no painel do título, mas os “clássicos” estão todos lá, e este é o maior mérito de uma montagem sem a mesma qualidade das dezenas de sambas que desfilam, com pouco vigor, por dois atos.

O fio de texto que intenciona conduzir a evolução do samba é pouco mais do que rascunho de historietas, que vão se diluindo ao longo do espetáculo até ao ponto de desaparecer, completamente, no segundo ato.

Leia o artigo completo aqui

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Monarco cancela shows

Fortes dores na coluna fizeram com que Monarco cancelasse seus próximos compromissos em cima do palco.

Os shows "Monarco - Uma família no samba", marcado para os dias 26 e 27, no Sesc Pinheiros, em São Paulo, foram cancelados. Quem já comprou ingresso poderá reaver o dinheiro em qualquer unidade do Sesc.

Monarco, que está com 74 anos, também suspendeu outra apresentação, marcada para o dia 1º de agosto, no bar Carioca da Gema, na Lapa (RJ). O prazo para que ele volte aos palcos é de um a três meses.

Scat de samba

Scat Singing é a habilidade de improvisar musicalmente com sílabas e palavras sem sentido. É como se a voz se tornasse um instrumento de ritmo e melodia, sem que nenhuma frase seja definitivamente cantada.

Nisso, a cantora norte-americana de jazz Ella Fitzgerald era muito boa. Considerada a rainha do scat, Ella deu impressionantes demonstrações ao longo dos seus 79 anos de vida. Uma delas cantando "Samba de uma nota só", de Tom Jobim, e passando por "Desafinado", de João Gilberto. O vídeo abaixo é justamente esse.

A música que tem talvez a mais perfeita conexão entre melodia e letra é também considerada uma das canções emblemáticas da Bossa Nova - o assunto da crista da onda. Mas para não ficar falando de bossa, vamos ao vídeo.

Gravado no dia 22 de junho de 1969, Ella Fitzgerald é acompanhada por Ed Thigpen na bateria, Frank de la Rosa no baixo e Tommy Flanagan no piano. Acompanhada em termos. Note que muitas vezes a banda simplesmente não tem o que fazer:


terça-feira, 22 de julho de 2008

Entre o Gilberto e o Nogueira

Este post é o primeiro de uma nova seção - Lado A;Lado B -, cujo o propósito é ouvir versões diferentes de uma mesma música. A principío esta seção servirá apenas para vermos como cada artista imprime o seu estilo no decorrer do tempo e qual versão agrada mais.

A primeira comparação será feita em cima da música "O Samba É Meu Dom" (Wilson das Neves/Paulo César Pinheiro). Sua primeira gravação saiu no disco "O Som Sagrado de Wilson das Neves" (1996). Wilson se destacou no meio musical por acompanhar na bateria diversos artistas. Entre eles, Chico Buarque.

A outra gravação que foi escolhida foi a de um sambista da dita "nova geração" que gosto bastante: Pedro Miranda. É possível encontrar essa versão no disco "Coisa Com Coisa" (2006)

Ambas as canções possuem a mesma cadência, porém Wilson se utiliza de trombone, piano e a bateria, como não podia faltar. Já Pedro apresenta instrumentos mais ligados ao samba, como cavaco, violão, tamborim, flauta e até uma cuíca.

Outra mudança que ocorre na versão de Pedro Miranda é que ele não menciona o "Gilberto" (de João Gilberto). Mais que isso, na segunda vez em que ele passa por essa parte da música substitui o nome de João Gilberto para João Nogueira.

O samba é meu dom
Aprendi cantar samba com quem dele fez profissão
Mário Reis, Vassourinha, Atualfo, Ismael, Jamelão
Com Roberto Silva, Sinhô, Donga, Ciro e João Gilberto


E finalmente a última mudança que ocorre é a substituição da palavra "baquetas" por pandeiro efetuada por Pedro no seguinte verso:

O samba é meu dom
É no samba que eu vivo
Do samba é que eu ganho meu pão
E é no samba que eu quero morrer
De baquetas na mão
Pois quem é de samba
Meu nome não esquece mais não


Confira a letra original e as duas versões abaixo:

O samba é meu dom
Aprendi bater samba ao compasso do meu coração
De quadra, de enredo, de roda, na palma da mão
De breque, de partido alto, e o samba-canção

O samba é meu dom
Aprendi dançar samba vendo um samba de pé no chão
No Império Serrano, a escola da minha paixão
No terreiro, na rua, no bar, gafieira e salão

O samba é meu dom
Aprendi cantar samba com quem dele fez profissão
Mário Reis, Vassourinha, Atualfo, Ismael, Jamelão
Com Roberto Silva, Sinhô, Donga, Ciro e João Gilberto

O samba é meu dom
Aprendi muito samba
Com quem sempre fez samba bom
Silas, Zinco, Aniceto, Anescar, Cachiné, Jaguarão
Zé com Fome, Herivelto, Marçal, Mirabeau, Henricão

O samba é meu dom
É no samba que eu vivo
Do samba é que eu ganho meu pão
E é no samba que eu quero morrer
De baquetas na mão
Pois quem é de samba
Meu nome não esquece mais não






segunda-feira, 21 de julho de 2008

Vermute entrevista Nicolas Krassik

Nicolas Krassik tinha tudo para jamais conhecer a música brasileira. Ou pelo menos não se empolgar com ela. Nasceu em Paris. Estudou por quase 15 anos no Conservatoire National de Region d´Aubervilliers-la Courneuve, onde se formou em violino clássico. Aos 20 anos passou mais um ano no Centre de Formation Musicale de Paris, estudando jazz. Sua vontade era tocar mesmo rock e funk no violino.

Mas ele ouviu os acordes do choro e samba e se apaixonou. Aos 31 anos de idade se mudou para o Brasil para resolver seu “problema” com a música brasileira. Ia passar seis meses, mas já mora no Rio de Janeiro há sete anos. A música brasileira não foi adotada apenas no violino. Seu sotaque já abandonou os “erres” duros do francês para falar tranquilamente os “esses” do carioquês.

Recentemente gravou seu terceiro disco, o Cordestinos, que reúne jazz e música nordestina. A seleção de músicas, com arranjos do próprio Nicolas, é um primor. Fui ao show de lançamento do disco e fiquei extasiado. Decidi que queria fazer uma entrevista para o Vermute e, por esse motivo, Nicolas me atendeu por telefone pouco antes de fazer um show:

De tanto morar no Brasil, você já atende por Nicolas (e não Nicolá como seria a pronúncia francesa do seu nome)?
Ah sim, atendo sim. Olha, até geralmente me apresentam como Nicolas e eu me apresento como Nicolas, porque se eu falar Nicolá, as pessoas não entendem. Aliás, eu já falo como carioca Nicolas [fala escorregando no “s”].

O violino foi seu primeiro instrumento?
Foi. Eu tinha cinco anos e meio. Minha mãe tocava piano e meu pai violão. Minha irmã, que é mais velha do que eu, já tinha ido para o conservatório e eu tinha que ir também. Minha mãe não perguntou nem se eu queria tocar, mas perguntou o que eu iria tocar. Escolhi o violino e entrei com cinco anos e meio. Terminei com 19 anos. A França tem essa cultura de música de violino muito forte.

Como começou sua relação com a música brasileira?
Minha relação com a música brasileira começou antes, de várias maneiras. Meu pai, como tocava violão, tinha alguns discos do Baden [Powell], do Villa Lobos. Então eu ouvia sem saber. Mais tarde, quando eu comecei a tocar jazz, toquei com um guitarrista que era fã do João Bosco e de Dominguinhos. Eu me lembro que até aprendi a tocar um pouco de violão para tocar umas músicas de MPB que acabei conhecendo. Mas o que me tornou um viciado em música brasileira foi uma festa em um bar que tinha músicos que tocavam música brasileira. Lá comecei a aprender a dançar, conheci alguns capoeiristas que freqüentavam, entrei em uma academia de capoeira e joguei capoeira por cinco anos. Minha vida se dividia entre o jazz e a música brasileira. Todo final de semana ia para este bar e outros que tocavam.

E a primeira música brasileira que você fez um arranjo era do Pixinguinha...
Um ano antes de vir para o Brasil, fui convidado para um festival de jazz na Alemanha. Era um festival de free jazz, que era todo dedicado ao Pixinguinha. Me lembro que a gente ensaiou por três dias. A idéia era fazer o show e gravá-lo. Cada músico tinha que preparar duas músicas do Pixinguinha, fazer uma leitura como quisesse. E cada um chegou com uma coisa maluca. Tinham algumas interpretações mais tradicionais, de gente que já o conhecia, e tinham coisas totalmente malucas. Pro show eu acho que acabei nem fazendo duas músicas, fiz o “Vou Vivendo” dele. Depois do show eu fiquei com umas partituras dele. Também me lembro que alguém me emprestou um bandolim para eu aprender a tocar. Como é a mesma afinação do violino e tal. Eu já estava ensaiando para vir para o Brasil e me animou um disco que eu tinha escutado do Raphael Rabello e do Armandinho. Quando cheguei já sabia tocar uma ou duas músicas do Pixinguinha no bandolim. E de certa forma eu dei um pouco de sorte porque quando cheguei aqui o choro estava voltando à moda. Eu, como músico de jazz, me identifiquei muito. Achei tudo muito divertido, os músicos maravilhosos. Aí comecei a pesquisar um pouco e depois comecei a dar minhas canjas. Eu já sabia falar um pouco de português e entendia um pouco também. No geral consegui me comunicar bem.

Como veio a decisão de morar no Brasil?
Foi depois de umas férias que passei, durante o carnaval. Eu voltei com a sensação que não tinha conhecido o Brasil na melhor época do ano. Fiquei com uma lembrança muito boa e comecei a pensar nisso e falar com meus amigos músicos que sabiam que eu estava totalmente envolvido. E alguns amigos me disseram: “Por que você não vai prá lá, passar um tempo?” Pra mim parecia impossível, mas aos poucos comecei a pensar e essa idéia começou a me obcecar. Decidi passar uns seis meses pra resolver esse assunto. Então, fiquei uns cinco meses em Paris me organizando. Vendi minha casa, meu carro, meu som. Preparei a mala, comprei um laptop e fui. Tudo isso sem saber o que eu iria encontrar. Eu só tinha um contato de um amigo de um amigo meu para me receber.

E deu certo, né?
E deu muito certo. Foi a primeira vez que eu fiz isso. Nunca tinha tirado férias e viajado sozinho. De repente me vi no aeroporto, com minha mala e meu violino. Eu tinha uma lista enorme de endereços para procurar. Acabei fazendo amizade muito rápida com os músicos. Ainda mais que no Brasil o povo é muito receptivo. Quando vi já estava aqui há seis meses e não dava pra voltar mais. Até teve uma época que minha mãe estava um pouco doente. Fiquei sem saber o que fazer. Me deu vontade de voltar para ficar com ela, mas eu sabia que ela mesmo não queria que eu fizesse isso. Eu ia ter que deixar muita coisa para trás. Fiquei balançado, mas não voltei. Ela faleceu. Atualmente meu pai não está muito bem, mas minha vida está aqui. Construí uma família aqui e não consigo imaginar minha vida em Paris outra vez. Quando eu vou lá de férias é só para curtir com a minha família e com meus amigos, porque eu nem gosto muito mais de lá. Hoje, para eu voltar de vez, só se acontecesse alguma coisa muito séria, como uma guerra. Aí, seu eu precisasse fugir, eu usaria meu passaporte francês.



Como surgiu a idéia de mesclar jazz, música erudita e ritmos nordestinos?
A música erudita não existe mais na minha vida. Eu não toco mais. O violino lembra a musica erudita, mas o trabalho é sempre popular. Já o jazz sempre fez parte da minha bagagem. O conservatório sempre foi musica clássica, é verdade, mas depois estudei violino com jazz. Toquei com Michel Petrucciani (foto abaixo) e Didier Lockwood. Na verdade, eu comecei a estudar jazz porque queria tocar rock e funk e me disseram que se eu estudasse jazz teria elementos para tocar qualquer tipo de música. Então isso faz parte da minha bagagem e improvisar é meu maior prazer. Adoro improvisar. Agora meu jeito de improvisar mudou com música brasileira. Isso acaba criando um estilo muito pessoal.


E esse seu estilo acabou conquistando um espaço aqui...
O que faz a gente traçar uma carreira e ter um público é a união de muitos fatores. Sou muito perfeccionista, mas você pode ser um grande músico e não dar certo. Eu sou francês, toco violino (que não é popular na música brasileira), dei sorte de conseguir agradar. Claro que não é só sorte, é muito trabalho também. É vontade de querer agradar. Mas a minha maior vitória não é vender disco ou fazer shows lotados, mas a aceitação do meio musical. Tenho a sensação que eles me aceitaram. Já me sinto fazendo parte deles. Não sou mais um francês que chegou aqui para tocar violino. Não sinto qualquer rejeição. Sou muito bem tratado e respeitado. Também porque eu respeito muito.

Na faixa sete (Chamego Bom), do novo disco, eu me lembrei muito do estilo do Piazzolla de fazer música? Você gosta do Piazzolla?
Adoro Piazzolla, acho maravilhoso. Eu toco no LiberTango. A gente sempre está junto e eu sempre faço participação com eles. No primeiro disco deles eu tocava em quase em todas a músicas. Meu contato com Piazzolla começou na França: eu tocava com um bandoeonista em um quarteto de cordas. Mas a musica do Zé Paulo [Becker] não tem muita diferença do que eu fiz pra o que ele fez. È que o violino é muito forte no Piazzolla e por isso pode dar essa impressão.



Qual compositor brasileiro você mais admira?
Sou fã do Jacob do Bandolim. Foi ouvindo ele que me deu vontade de tocar choro, até porque o bandolim tem a mesma afinação do violino. Acho que o Jacob tem uma linguagem moderna. que continua sendo moderno hoje. Eu adoro choro, mas as pessoas acham que só por que eu toco música instrumental só tenho referências de música instrumental. Mas eu sempre preferi escutar musica cantada. Quando estou com vontade de escutar música, para relaxar, eu vou colocar um disco do Paulinho [da Viola], do Chico [Buarque], da Marisa Monte. Não sei por que. Eu gosto das letras. Também sou fã do Dominguinhos. Em cada CD meu estou gravando músicas dele. Meu sonho é poder trocar algumas notas com ele.

Como você faz a escolha do seu repertório? Você não compõe?
Ah, isso é uma dor de cabeça. Eu não sou compositor, fiz quatro musicas na minha vida. Uma não gravei. Tem tanta coisa que estou a fim de tocar, que não me dá tanta vontade de criar outras. Eu gosto de fazer arranjos que são a princípio simples, mas em um ritmo diferente. Para não ser só mais uma interpretação da música, sabe? Mas compor é meu...eu nunca gosto do que eu faço. No CD anterior, compus uma música para minha mãe, que havia falecido. Então aí foi fácil e eu gostei do resultado. A música saiu em uma noite. Quando eu vi eu gostei, quis compor outra, como se fosse um exercício de estilo. Aí resolvi compor um maxixe e fiz um maxixe. Depois, então, quis compor um baião. E com essa formação do novo disco, fica difícil fazer uma música mais melodiosa, mais romântica. Mas eu cheguei no estúdio, sem ninguém saber dessa musica e apresentei: “Olha só, eu tenho essa música, mas acho que não estou gostando”. Eles gostaram e decidimos gravar [é a música Cordestinos, faixa 4 do disco]. Foi gravando que comecei a gostar. Mas, sinceramente, eu nem penso em fazer alguma coisa só autoral por enquanto.

Sempre entra um sambinha?
É, até agora sim. Eu adoro samba, choro e tudo isso. Sou apaixonado por tudo isso. O forró foi, digamos, minha última aquisição. Tenho uma identificação um pouco maior porque o ritmo me é mais familiar. Sinto uma atração muito forte pelo ritmo, sinto vontade de dançar. E essa coisa de gostar de música cantada: Noel, Nelson Cavaquinho, são coisas que gosto. No primeiro disco fiz “Tudo se Transformou” do Paulinho da Viola e não coloquei uma nota de improviso.

Dos seus discos, qual seu preferido?
Acho que eu mais do último porque foi um projeto que fiz do início ao fim. Pensei na formação do grupo, no repertório, nos arranjos, fiz produção, pós-produção, mixagem... fiz tudo. Ele é realmente um filho. Mas pelo primeiro [Na Lapa] eu tenho um carinho especial por ser meu primeiro disco.

E a música preferida de Cordestinos?
Hum...não sei, é difícil. Deixa eu ver a musicas aqui... talvez “O amor daqui de casa”, do gil, que é trilha do filme “Eu, Tu, Eles”. Quando voltei do Brasil para a França comprei esse disco. Essa foi minha trilha por cinco meses. Essa música faz parte desse momento da minha vida. E eu tenho um carinho especial por ela. E qualquer uma do Dominginhos, mas eu não sei mesmo.

No disco anterior tinha rabeca também?
Tem sim, o Luis Paixão, um grande rabequeiro que conheci em Olinda. Era tão bom que decidi que ia gravar a rabeca dele. Aluguei um estúdio em recife, gravei uma zabumba de referência, e gravei a rabeca dele. Quando cheguei no Rio, fiz os arranjos e ficaram sendo as últimas músicas do disco [Bem Temperado e Arrumadinho].

Mas você nunca tinha gravado você tocando a rabeca?
Mas no disco novo toquei rabeca pela primeira vez. O Marcos [Moletta] que fazia. Meu jeito de tocar é diferente. Até a forma de empunhar é diferente. A rabeca você põe no braço, que é uma coisa de tradição, mas limita mais pra algumas coisas. Eu tentei tocar assim, mas comecei a sentir dor no braço, na mão. Eu não vou tocar pior só pelo lado visual

Há quanto tempo o grupo deste disco toca junto?
Faz um ano e meio da primeira apresentação que chamei eles e a gente fez um show no Rio. Aí gravamos um CD demo, fizemos protótipo de show e soou pra mim como um CD...

Você é um cara que gosta de estudar música brasileira?
Vou muito assim, cada dia é um dia. Eu não estudo muito tempo. Não gosto muito de estudar. Já estudei demais. Estudo quando tenho que tirar alguma música e estudo um pouco de percussão. Estou estudando zabumba há dois anos e meio. Tenho minha zabumba e já dei canja de zabumba. Agora estudar um gênero... Talvez fiz isso no início, mas hoje em dia vou aos poucos, dependendo do que quero.

Você está saindo do Brasil para fazer shows agora?
Eu e o Yamandu [Costa] vamos para a Finlândia, Córsega e Alemanha. Mês que vem, iremos para o Canadá e há uma previsão de ir tocar no Japão. Mas com o “Cordestinos” estamos começando. Fizemos um lançamento em São Paulo e um grande lançamento no Rio. Agora estamos mandando CD´s para organizadores de festival. Meu sonho é tocar isso no nordeste. Sei que no nordeste tem aquele forró que não me agrada muito, esse forro mais eletrônico... Não sei como os forrozeiros de lá vão receber essa rabecada moderna. Mas tem tudo a ver, né?

domingo, 20 de julho de 2008

Disco da semana: Se Você Jurar - Ismael Silva


Este disco foi lançado originalmente em 1973 pela RCA Victor e reeditado em CD no ano de 2004. O disco é quase inteiro composto de músicas de autoria somente de Ismael. Porém há algumas que incluem parceiros de peso como: Noel Rosa, Nilton Bastos, Francisco Alves e Lamartine Babo.

Depois deste disco ainda foram lançados mais duas obras referentes ao malandro do Estácio. Uma é um CD em homenagem lançado por Jards Macalé e Dalva Torres e o outro é o áudio do programa Ensaio que foi lançado em CD. Ou seja este foi o último trabalho que Ismael gravou com a intenção de transformá-lo em disco.

O disco é um bom resumo da obra de Ismael, sendo por isso um bom documento para quem quer se “iniciar” no compositor, pois possui algumas de suas músicas mais conhecidas e mais bonitas, entre elas: Antonico, Se Você Jurar, Nem é Bom Falar e Adeus. Por possuir também músicas menos conhecidas é também uma boa pedida para os que já conhecem parte da obra do malandro.

Um fato curioso sobre o disco é que na faixa que o abre, Ismael se apresenta e diz que espera que o público goste de suas músicas que serão executadas. Um fato estranho para um compositor, que segundo dizem, possuía um ego bastante inflamado.

Músicas:
1 - Antonico (Ismael Silva)
2 - Nem é Bom Falar (Ismael Silva / Francisco Alves / Nilton Bastos) - Adeus (Ismael Silva - Noel Rosa)
3 - Me Diga Teu Nome (Ismael Silva - Noel Rosa) - Boa Viagem (Ismael Silva - Noel Rosa)
4 - Se Você Jurar (Ismael Silva / Francisco Alves / Nilton Bastos) - Para Me Livrar Do Mal (Ismael Silva - Noel Rosa)
5 - Ao Romper da Aurora (Ismael Silva / Francisco Alves / Lamartine Babo) - Choro Sim (Ismael Silva)
6 - Tristezas Não Pagam Dívidas (Ismael Silva) - Novo Amor (Ismael Silva)
7 - Contrastes (Ismael Silva)
8 - Alegria (Ismael Silva)
9 - Aliás (Ismael Silva)
10 - Receio (Ismael Silva)
11 - Entrada Franca (Ismael Silva)
12 - Afina a Viola (Ismael Silva)

Baixe esse disco no Prato e Faca.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

O negro e a cultura brasileira

Será que alguém ainda duvida de que o negro revolucionou a cultura no Brasil? Digo isso porque com a inclusão da capoeira como patrimônio cultural nacional, sobe para seis (de quatorze) o número de manifestações que sofreram influências diretas dos negros no Brasil.

Já são patrimônios a já citada e recém incluída Capoeira, o Samba de Roda do Recôncavo Baiano, o Jongo no Sudeste, o Samba no Rio de Janeiro, o Ofício das Baianas de Acarajé e Tambor de Crioula do Maranhão, que é uma espécie de dança acompanha por canto e percussão de tambores.

Essas e outras manifestações são classificadas como "Patrimônio Imaterial", que segundo o IPHAN, é aquilo que "é transmitido de geração em geração e constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função de seu ambiente, de sua interação com a natureza e de sua história, gerando um sentimento de identidade e continuidade, contribuindo assim para promover o respeito à diversidade cultural e à criatividade humana."


Não há como negar a importância desta raça para o nosso país. A lista do IPHAN está só no começo e com certeza há muitas coisas a serem incluídas como o samba que ocorria no interior paulista, o Tambú e tantas outras coisas que eu sequer sei que existe.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Satã na TV

Neste sábado (19), às 22h30, a TV Cultura irá exibir o filme "Madame Satã", durante o "Cine Brasil". Dirigido por Karim Aïnouz, o longa fala de um dos personagens que marcou a história da Lapa nos anos 30: João Francisco dos Santos, o Madame Satã.

Amigo de Noel Rosa e outros frequentadores dos arcos, Satã precisou de muita malandragem para superar todos os preconceitos. Artista negro, pobre, homossexual e transformista, Satã (interpretado por Lázaro Ramos) deu muita pernada até finalmente se aquietar ao lado de uma prostituta, com quem se casou.

Escrito por Aïnouz e Marcelo Gomes --diretor de "Cinema, Aspirinas e Urubus", o longa recebeu, em 2002, o prêmio de melhor direção no Festival de Biarritz, além do Gold Hugo no Chicago International Film Festival.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Carnaval à venda

Mais um "está dito". A seção sempre tem muito texto, mas vale a pena. Desta vez, Plínio Marcos faz seu lamento na Folha de S.Paulo pelo que aconteceu com o carnaval de São Paulo há um bom tempo. Não dá pra voltar atrás, mas como dizem, recordar é viver.

O Carnaval dos cordões

Por Plínio Marcos, em 13 de fevereiro de 1977

A tradição canavalesca de São Paulo era o cordão. Havia algumas escolas de samba, porém (e sempre tem um porém), os bambas, a pesada eram os cordões. Camisa Verde e Branco (branço mesmo), Vai-Vai, Paulistano da Glória, Campos Elíseos, Som de Cristal eram todos famosos cordões. E o cordão paulista tinha batida diferente das escolas de samba, tinha outras figuras e outras mumunhas. Eu disse "tinha". Porque, que eu saiba, não existe mais nenhum cordão em São Paulo. Os que não acabaram de vez se transformaram em escolas de samba. Como é o caso do Vai-Vai e do Camisa Verde e Branco, que foram os que mais resistiram, antes de se transformarem em escolas de samba. E o fim dos cordões, sem dúvida nenhuma, se deve ao elitismo, ao paternismo das autoridades que, quando resolvem incrementar algumas manifestações espontaneas do povo, mesmo quando estão bem intencionadas, só atrapalham. Isso porque as autoridades, sempre tão distantes das bases, tomam suas medidas dentro dos gabinetes, escutando acessores que geralmente se preocupam com o brilhareco que resulte em algum lucro e nunca nos interesses da coletividade.

No caso do samba de São Paulo, não deu outra coisa. O Prefeito Faria Lima resolveu, com a melhor das intenções, oficializar o Carnaval de São Paulo. Mas deve ter consultado gente que sempre achou que nesta cidade não havia samba, nem sambistas. E essa gente, sem vacilar, desconhecendo totalmente o que é Carnaval, desconhecendo que carnaval não se resume apenas em desfiles, nem em escolas de samba, que desfile e escolas de samba são um aspecto do carnaval, que existem vários outros aspéctos que também devem ser considerados, essa gente estava interessada na cascata que podia fazer em torno da oficialização do Carnaval e não na preservação dos costumes carnavalescos do povo desta cidade. E então, sem nenhuma cerimônia, fizeram a presepada: oficializaram o Carnaval. Mas, na lei, ficou claro que o único evento carnavalesco que a Prefeitura se via obrigada a realizar era o desfile das escolas de samba. Resultado, todo incentivo da Prefeitura para as escolas de samba e nenhum para os cordões que, diante da indiferença das autoridades, foram se extinguindo ou virando escolas de samba, puxadas aos defeitos das escolas do Rio de Janeiro (é mais fácil copiar defeito que virtude) e se desvinculando totalmente das raízes culturais de São Paulo.

O samba paulista é diferente do samba baiano que se instalou no Rio de Janeiro a partir da casa das "tias". O samba paulista é mais puxado ao batuque, ao samba de trabalho. Do toco, durão. O samba paulista vem das fazendas de café. O crioulo vindo do interior ia se instalando perto dos locais de trabalho: Jardim da Luz, Barra Funda, Largo da Banana, Praça Marechal, Alameda Glete, Bexiga, Rua Direita, Praça da Sé. E aqui, como no Rio de Janeiro, a polícia perseguia o samba e os sambistas. No Rio de Janeiro, os pagodeiros subiam o morro e a polícia se acanhava, e aí, não havia remandiola. O samba era solto, batido na mão, espalhado pelo terreiro. Aqui, o sambista se recolhia nos porões e lá puxava o samba, mas, naturalmente, não era a mesma coisa. Um samba espalhado debaixo de um céu cheio de estrelas e de luar e um samba espremido em porões, nos quais crioulo de mais de um metro e setenta tinha que mostrar o que sabia todo dobrado, pra não bater com a testa nas vigas. E quando o pagode esquentava, era tanta poeira que subia, que só era possível saber que estava havendo samba pelo ronco da cuíca e pelo gemido do cavaquinho, porque ver, não se via ninguém.

São muitos os grandes sambistas de São Paulo: Vassourinha (Olha aí, carnavalescos de escolas de samba, que andam com mania de enredo com vida de artista: esse foi gente grande e de muita embaixada no rádio), Dionísio Camisa Verde, Marmelada, Jamburá, Feijó, Pato Nágua, Sinval, Inocêncio Mulata, Carlão do Peruche, Nenê da Vila Matilde, Pé Rachado, Zézinho do Morro da Casa Verde, Geraldão da Barra Funda, Chiclete, Zeca da Casa Verde, Toniquinho, Nego Braço, Zoinho, Dona Eunice, Sinhá, Donata, Tudo gente que mantinha o samba na rua na época em que a polícia acabava samba na base do chanfralho.

Tudo gente de valor provado no meio das batalhas.Tudo gente que saía nos cordões pelo prazer de sair, por gostar de samba, por querer sambar. No centro da cidade, muitas vezes, um cordão que ía encontrava um cordão que vinha. Então, era coisa pra valente. Ninguém recuava. Os cordões se cruzavam. Tinha um ritual todo cheio de parangolé. O baliza de pau de um cordão protegia a porta-estandarte do outro cordão. Os estandartes (ou bandeiras) eram trocados com muita gentileza e muito respeito. Depois de um tempo, se destrocavam os estandartes (ou bandeiras) e aí o pau comia. Navalha, tamanco, porrete entravam na fita pra bagunçar o pagode.

Pato Nágua foi levar uma cabrochinha lá pras bandas de Suzano. Amanheceu boiando numa lagoa, comido de peixe e de bala. Dizem que foi a primeira vítima do Esquadrão da Morte. Ninguém sabe direito. Defunto não fala. O que se sabe é que a notícia chegou no Bexiga à tardinha, na hora da Ave-Maria, e logo correu pelos estreitos, escamosos e esquisitos caminhos do roçado do bom Deus. E por todas as quebradas do mundaréu, desde onde o vento encosta o lixo e as pragas botam os ovos, o povão chorou a morte do sambista Pato Nágua. E o Geraldão da Barra Funda, legítimo poeta do povo, chorou por todos num bonito samba chamado Silêncio no Bexiga.

O Largo da Banana era o lugar onde os caminhões que vinham do interior encostavam pra descarregar. Ali se juntava a curriola. Enquanto não vinha caminhão se armava o samba duro. Se jogava a tiririca:

É tumba, moleque, é tumba
é tumba pra derrubar
tiririca, faca de ponta
capoeira vai te pegar
Dona Rita do Tabuleiro
quem derrubou meu companheiro
Abre a roda, minha gente
que comigo é diferente

E só parava na roda quem se garantia. E o Inocêncio Mulata (hoje presidente do Camisa Verde e Branco da Barra Funda) sabia tudo. Tudo e mais alguma coisa. E no Carnaval, puxava no surdão um famoso trio de couro. Ele no surdão, o Feijó na caixa de guerra e o Zoinha no tamborim. Paravam num boteco qualquer e começavam a zoar. Ia juntando gente, juntando gente e aí o rio saía pela Barra Funda, com uns duzentos sambando atrás. Na Praça Marechal, já eram dois mil, na Glete, cinco mil. Aí, era zorra, zorra total, até a polícia chegar. Foi nesse trio de couro que o Inocêncio ganhou o apelido de Mulata. Logo ele, que não é de fazer careta pra cego, resolveu aprontar pro Feijó, que não podia ver rabo de saia. O Inocêncio pegou um vestido da Dona Sinhá, meteu um turbante, se embonecou e ficou na moita. O Feijó e o Zoinha, que estavam no boteco esperando o companheiro de trio, foram tomando todas. Quando já estavam bem bebuns, e achando que o Inocêncio não viria mais, ele se apresentou vestido de mulher. Fez sucesso pro Feijó, que achou aquilo uma tremenda mulata e foi logo pagando cerveja. Mais encantado ainda ficou o Feijó quando aquela mulata pegou no surdo e mandou ver. O trio saiu. O Feijó todo preocupado com a mulata e alimentando ela com cerveja até a Glete. Aí, o Feijó resolveu partir com tudo. Se entortou. O Inocêncio tirou o turbante e se apresentou. O patuá do Feijó entortou. Mas o Inocêncio ganhou pra sempre o apelido de Mulata.

Mas a guerra se avacalhou. Não existe mais trio de couro, nem bloco de sujo, nem vai-quem-quer. Essas manifestações espontâneas do povo, que sempre a polícia tentou acabar sem conseguir, acabaram graças às promoções carnavalescas da Prefeitura.

No lugar dessas coisas todas, a Prefeitura meteu o Trio Elétrico. A própria poluição sonora, que com guitarras elétricas e grandes aparelhos de som, esmagam, apagam qualquer instrumento de couro batido por um sambista. Alguns músicos defendem essa jeringonça como mercado de trabalho, mas esquecem que um toca-fitas e uma Kombi fazem o mesmo efeito que esse trio elétrico. E esquecem que falta mercado de trabalho porque muitos bailes de Carnaval em São Paulo são animados por toca-fitas e que a própria Prefeitura promove um bailão pra quarenta mil pessoas, com toca-fitas.

São Paulo sempre teve muito carnaval. Mas hoje está tudo resumido no desfile das escolas de samba e nos bailes dos clubes. E isso tudo é muito triste. Porque o Carnaval sempre serviu pras manifestações espontâneas do povo. E tudo agora vai se resumindo num espetáculo pra atrair turista. Feito no gosto dos turistas e avaliado pelos padrões culturais das elites. E isso dói. Porque um povo que não ama e não preserva suas formas de expressão mais autênticas jamais será um povo livre.
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